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terça-feira, 16 de setembro de 2008

Tudo muda o tempo todo no Mundo

Olhava sempre o mapa, somava os quilômetros, media a distância.
Uma vez voando nas nuvens, pediu a Deus pra ficar mais perto, pediu uma segunda chance. Repetiu a mesma frase até cansar, cansá-lo de ouvir, incansável em pedir.

Olhando o sol ir embora pela janela do terceiro andar, desejou mais uma vez, com tanta força que o aperto doeu o coração.

Procurou estrelas cadentes no céu estrelado, deitada na cama grande e vazia.

Acordou certa manhã sozinha e decidida, uma luz se acendeu, de um pulo correu até o computador, era a cartada final, redigiu, enviou, e muito pouco esperou. A resposta veio 5 minutos depois, 10 minutos de conversa, tudo certo, combinado, confirmado, 1.600 km de distância reduzidos a 106. Deus é fiel. E Ele me ama!

domingo, 14 de setembro de 2008

Então, vem...

"Vem, antes que eu me vá, antes que seja tarde demais.
Vem, que eu não tenho ninguém e te quero junto a mim.
Vem, que eu te ensinarei a voar."
[Caio Fernando de Abreu]

domingo, 7 de setembro de 2008

Festa no outro apartamento


Anos atrás a cantora Marina compôs com o irmão dela, o poeta Antônio Cícero, uma música que dizia: "eu espero/acontecimentos/só que quando anoitece/é festa no outro apartamento". Passei minha adolescência inteira com esta sensação: a de que algo muito animado estava acontecendo em algum lugar, porém eu não havia sido convidada.

Até aí, nada de novo. Não há um único ser humano que já não tenha se sentido deslocado e impedido de ser feliz como os outros são - ou aparentam ser. O problema está em como a gente reage a isso. A grande maioria que espera "acontecimentos" fica ligada demais na festa do vizinho, se perguntando: como fazer para ser percebido? A resposta deveria ser: percebendo-se a si mesmo. Mas é o contrário que acontece: a gente passa a se vestir como todo mundo, falar como todo mundo, pensar como todo mundo. Só então consegue passe livre: ok, agora você é um dos nossos, a casa é sua.

As festas em outros apartamentos são fruto da nossa imaginação tão infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias de jornal. As pessoas alardeiam muito suas vitórias, mas falam pouco das suas angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas fraquezas, então fica parecendo que todos estão comemorando grandes paixões e fortunas, quando na verdade a festa lá fora não está tão animada assim.

É preciso amadurecer para descobrir que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco, com motivos pra dançar pela sala e também motivos pra se refugiar no escuro, alternadamente. Só que os motivos pra se refugiar no escuro não costumam ser revelados. Pra consumo externo, todos são belos, lúcidos, íntegros, perfeitos. "Nunca conheci quem tivesse levado porrada/todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo". Fernando Pessoa sacando que nada é o que parece ser.

Sua solidão, sua busca por paz interior, seus poucos e leais amigos, seus livros, suas músicas, fantasias, de desilusões e recomeços, tudo isso vale ser incluído na sua biografia, e pode ser mais divertido que uma balada em algum lugar distante. Pegar carona na alegria dos outros é preguiça, e quase sempre é furada. Quer festa? Promova-a dentro do seu apartamento.
(Martha Medeiros)

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Coração Blindado


Fácil falar
Fazer previsões depois que aconteceu
Fácil pintar o quadro geral
Da janela de um arranha-céu
Sem ter que sujar as mãos
Sem ter nada a perder
Sem o risco de pagar pelos erros que cometeu
Fácil achar o caminho a seguir
Num mapa com lápis de cor
Moleza mandar a tropa atacar
Da tela do computador
Sem o cheiro
Sem o som
Sem ter nunca estado lá
Sem ter que voltar pra ver o que restou
Com a coragem que a distância dá
Em outro tempo em outro lugar
Fica mais fácil
Fácil demais
Fazer previsões depois que aconteceu
Fácil sonhar condições ideais
Que nunca existirão
Sempre a distância
Sem noção
O que rola pelo chão
Não são as peças de um jogo de xadrez
Com a coragem que a distância dá
Em outro tempo em outro lugar
Tudo é tão fácil
(Engenheiros do Hawaii)