"Eu quero nada uma mulher dessa na minha vida".

Todo dia a gente ia completar o almoço do "Podrão" com um copão de açaí com leite condensado. Era o momento mais esperado do dia, o mais prazeroso, momento sublime, etéreo. Já almoçava pensando nisso, pensando no açaí. E muitas vezes  a gente brigava pelas poucas castanhas que vinham na granola e sempre pedia pra o rapaz do açaí colocar mais um pouquinho de leite condensado... só mais um pouco... um pouquinho mais...

Certo meio-dia, estava eu em mais um desse momentos, quando de repente adentra ao recinto um rapaz forte, robusto, corado, vendendo saúde e pedindo dinheiro. 

Nenhum dos meus colegas que estavam na lanchonete quis dar dinheiro pro molecão, mas ele insistia. A gente começou a perguntar se ele queria trabalhar, se não procurava um trabalho, uma ocupação em vez de ficar só pedindo esmolas. Ele disse que sim e perguntou com quem poderia falar pra arranjar um emprego na firma que trabalhávamos. Nós, muito solícitos, já estávamos quase dando o telefone do administrador, mas prefirimos orientá-lo a fazer um currículo ou ir pessoalmente no canteiro falar com o responsável pelas contratações na área administrativa. Ele ouviu tudo com atenção e no final acrescentou, dizendo: 

- Eu quero mesmo arranjar um trabalho, mas um que não me canse muito. 

Mar´minino, um trabalho desse até eu quero! E respondi que, ora, se ele arranjasse dois, que me indicasse para um. 

No outro dia, novamente nós no Açaí e olha quem chega pedindo ajuda novamente? O molecão robusto. Chegou chegando e enchendo o saco de muita gente. Resolveu então grudar em mim e queria porque queria o meu açaí. Eu agarrada com o copo, segurando-o com as duas mãos, respondi instintivamente: Não! 

Mas como eu daria a ele meu momento mais prazeroso do dia? Depois de ter catado as últimas moedas da carteira até juntar os últimos 2 reais que eu tinha? Nunca! 

O rapaz não se conteve e insistiu insistentemente (a redundância é pra mostrar o quanto ele encheu as paciências), a ponto de outro colega começar a se irritar e tentar me defender. Foi aí que o garotão forte e corado me xingou, dizendo:

- Eu quero nada uma mulher dessa na minha vida! 

Virou as costas e foi embora. 

Meu amigo Eliabe chorou de rir. Não conseguia ficar sentado na cadeira de tanto rir. Todo mundo riu. E eu com cara de besta, pensando se em algum momento eu pedi pra fazer parte da vida dele e não lembrava. 

Depois desse dia por onde eu andava na cidade de Teixeira de Freitas via o menino. Na rodoviária, no centro, em qualquer rua. Fiquei com medo, cortava caminho, mudava de calçada. E essa frase se tornou o bordão que os meus colegas falavam sempre que me encontravam nos corredores ou na fila do restaurante. Apontavam para mim e diziam: "Eu quero nada uma mulher dessa na minha vida". 

É, Abe, diga aí, a gente ganhava pouco, mas se divertia. 

Comentários

  1. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, morro de rir só de lembrar!!!! meu Deus, foi muito cômico!!!! "quero nada uma mulher dessas pra minha vida!" kkkk

    é verdade kinha! agente ganhava pouco mas se divertia! e como divertia...
    kkkkkkkkkk ai minha barriga da doendo de tanto rir! kkkkkkk...

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    1. kkkkkkkkkk Ai, saudade!!! Nossa, tempo que não volta nunca mais, né? Podia voltar...

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