Era amor e essa é uma dor de que ainda me lembro

Mariá sentiu vontade de lhe escrever. Talvez mandar uma carta de amor. Ridícula. Mas era o único meio, uma carta ao modo tradicional, pelos correios, só para dizer que ele não precisava ter lhe bloqueado em todos os meios de comunicação modernos que existiam.  

Já tinham se passado três meses e ele continuava em silêncio. Quem muito se ausenta uma hora deixar de fazer falta? Ela acreditava e até pensava que tinha superado, esquecido. Mas hoje se dava conta que a decepção é como a morte, impossível de ser superada, com o agravante da agonia de ter que conviver, obrigatoriamente, com um fantasma que aparece nas horas mais improváveis. 

A imagem dos dois dentro do carro era o que assombrava a sua mente agora. Quando pensava que estava tudo bem, vinha tudo de novo. Dava para ouvir os caquinhos remendados com esparadrapo barato se soltando e caindo no piso do seu carro. E doía. A dor irradiava pelo braço esquerdo e ela fantasiava que talvez fosse algum problema na coluna cervical, mas o olhar no espelho dizia que não. O rosto de quem sofria, o sorriso murcho de quem sempre chorava, olheiras negras. Tomava um analgésico na ilusão que a dor do coração fosse passar. Deitava de bruços. Agonizava. Sofria.

Ninguém nunca lhe fez sentir tão especial e amada para logo depois lhe tratar como lixo. Ele tinha lhe tratado como a mulher mais desejada do mundo. Fechava os olhos e via claramente o quarto temático estilo casa rústica de fazenda. Tinha dois níveis. No primeiro uma cama grande com espelho na cabeceira e no teto. Uma mesa de vidro ao lado, pronta para um jantar ou café-da-manhã, com taças de vários tamanhos, pratos, talheres. No segundo um banheiro, uma banheira, duas pias, mais espelhos. Luzes coloridas. Som ambiente. Uma tv LCD grande com clips românticos e alguns canais de putaria. Deixou no canal dos clips porque a música era bonita. Pulou na cama como uma colegial. Testou todas as luzes, ligando e desligando várias vezes. Apertou todos os botões e tirou a roupa num pulo. De menina sapeca virou uma mulher sensual. Deitou na cama se apoiando nos cotovelos e cruzou as pernas. Olhar de devassa. Ele a olhou por completo todo vestido em pé, ao pé da cama, e elogiou sua lingerie vermelha com corações brancos. Adorava vermelho. Descruzou suas pernas com carinho. Tirou sua calcinha. Fez sexo oral nela como quem beija. 

Pela manhã seu olhar ardia. Fizeram o desejejum depois de um bom dia carnal. Conversaram muito sobre tudo. Sobre família. Sobre valores. Ele lhe lançou um olhar terno e disse: "Nem acredito que estou com você aqui. Como eu podia imaginar que isso um dia ia acontecer". E ela sorriu. Era disso que ela lembrava tanto hoje. O olhar que parecia tão sincero. O tom de voz grave. O bom papo. Lembrava que não tinha conseguido dormir direito, passara parte da madrugada em claro só porque não sabia dormir acompanhada. Não esquecia de nada, pior, lembrava com riquezas de detalhes, com requintes de crueldade, e chorava. As lágrimas já formando sucos na pele parda sem viço. 


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