Seu apartamento é feliz?

Mais uma noite que rolo na cama e não consigo dormir. É de noite que consigo ver, ouvir e produzir as coisas mais interessantes e minha cabeça fervilha de ideias e curiosidades que me impedem de dormir. Desta vez encontro um texto de Martha Medeiros compartilhado pela minha amiga Livinha. Vou reproduzi-lo aqui, porque hoje, pra variar, estou de novo com saudade de coisas (além das pessoas). 

Escolhi cada milímetro quadrado do nosso apartamento. Ele foi todinho planejado por mim e por marido meu (antes disso, por Deus pra nós) e eu sinto falta até do brilho do piso em porcelanato, dos espelhos por todos os cantos, do vermelho da cerâmica da cozinha, dos bibelôs, objetos que se espalham pela casa e que ganhei de presente de amigos e parentes queridos, das minhas cristaleiras que vão do piso até o teto, dos cantos que ficaram por ser decorados, do vento que muitas vezes entra tão forte pela janela da varanda. Mas viver também é desapegar. E assim sigo, tentando fazer desse lugar que não é nosso lugar, um cantinho também feliz, com detalhes, cheiros e cores que são só nossos. 

Eis o texto. E a resposta é sim, meu apartamento é muito feliz. Ou melhor, nossos apartamentos, nossos lares são felizes. Assim desejo que seja sempre, mesmo que seja uma choupana ou uma casinha de sapé no lugar mais inóspito da face do planeta. 

"Dia desses fui acompanhar uma amiga que estava procurando um apartamento para comprar. Ela selecionou cinco imóveis para visitar, todos ainda ocupados por seus donos, e pediu que eu fosse com ela dar uma olhada. Minha amiga, claro, estava interessada em avaliar o tamanho das peças, o estado de conservação do prédio, a orientação solar, a vizinhança. Já eu, que estava ali de graça, fiquei observando o jeito que as pessoas moram.

Li em algum lugar que há uma regra de decoração que merece ser obedecida: para onde quer que se olhe, deve haver algo que nos faça feliz. O referido é verdade e dou fé. Não existe um único objeto na minha casa que não me faça feliz, pelas mais variadas razões: ou porque esse objeto me lembra de uma viagem, ou porque foi um presente de uma pessoa bacana, ou porque está comigo desde muitos endereços atrás, ou porque me faz reviver o momento em que o comprei, ou simplesmente porque é algo divertido e descompromissado, sem qualquer função prática a não ser agradar aos olhos.



Essa regra não tem nada a ver com elitismo. Pessoas riquíssimas podem viver em palácios totalmente impessoais, aristocráticos e maçantes com suas torneiras de ouro, quadros soturnos que valem fortunas e enfeites arrematados em leilões. São locais classudos, sem dúvida, e que devem fazer seus monarcas felizes, mas eu não conseguiria morar num lugar em que eu não me sentisse à vontade para colocar os pés em cima da mesinha de centro.

A beleza de uma sala, de um quarto ou de uma cozinha não está no valor gasto para decorá-los, e sim na intenção do proprietário em dar a esses ambientes uma cara que traduza o espírito de quem ali vive. E é isso que me espantou nas várias visitas que fizemos: a total falta de espírito festivo daqueles moradores. Gente que se conforma em ter um sofá, duas poltronas, uma tevê e um arranjo medonho em cima da mesa, e não se fala mais nisso. Onde é que estão os objetos que os fazem felizes? Sei que a felicidade não exige isso, mas pra que ser tão franciscano? Um estímulo visual torna o ambiente mais vivo e aconchegante, e isso pode existir em cabanas no meio do mato e em casinhas de pescadores que, aliás, transpiram mais felicidade do que muito apê cinco estrelas. Mas grande parte das pessoas não está interessada em se informar e em investir na beleza das coisas simples. E quando tentam, erram feio, reproduzindo em suas casas aquele estilo showroom de megaloja que só vende móveis laqueados e forrados com produtos sintéticos, tudo metido a chique, o suprassumo da falta de gosto. Onde o toque da natureza? Madeira, plantas, flores, tecidos crus e, principalmente, onde o bom humor? Como ser feliz numa casa que se leva a sério?

Não me recrimine, estou apenas passando adiante o que li: pra onde quer que se olhe, é preciso alguma coisa que nos deixe feliz. Se você está na sua casa agora, consegue ter seu prazer despertado pelo que lhe cerca? Ou sua casa é um cativeiro com o conforto necessário e fim?

Minha amiga ainda não encontrou seu novo lar, mas segue procurando, só que agora está visitando, de preferência, imóveis já desabitados, vazios, onde ela possa avaliar não só o tamanho das peças, a orientação solar, o estado geral de conservação, mas também o potencial de alegria que os ex-moradores não souberam explorar". (Martha Medeiros)

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